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Entrevista com David Moser, Vice-Reitor da Yenching Academy na Universidade de Pequim
Kaloyan Georgiev | Outubro. 1, 2018

David Moser é doutorado em Sinologia pela Universidade de Michigan. Ele se especializou em filosofia e linguística chinesa. Entre 1987 e 1989 foi professor convidado da Universidade de Pequim. Ele também trabalhou em projetos científicos da Universidade de Michigan e da Academia Chinesa de Ciências. Além disso, foi diretor responsável pela parte acadêmica do programa CET em Pequim. A partir de 2018, David Moser é Vice-Reitor da Yenching Academy na Universidade de Pequim.

Você chegou na China nos anos 80. Conte-nos sobre a sua experiência.

- Eu vim pela primeira vez para a China em 1987, exatamente aqui na Universidade de Pequim. Eu era professor visitante e estava ajudando a traduzir um livro, mas é claro que eu também estava aprendendo. Aprendendo a cultura e a língua. Comecei como linguista e estava interessado principalmente na língua, mas quando cheguei aqui vi que a língua era apenas uma pequena parte da cultura. A cultura era algo a que você poderia dedicar toda a sua vida.

Quão diferente é a China hoje em comparação com aquela época?

- Materialmente, em termos de infraestrutura e economia, é como a diferença entre a noite e o dia. É a diferença entre um país em desenvolvimento, quase do terceiro mundo, em termos de PIB per capita e agora um país, que é a segunda maior economia do mundo. Por causa disso e em parte por causa de outros fatores da ascensão da China, também era um país que lutava por uma identidade, tinha um complexo de inferioridade, havia passado pelos “Cem anos de humilhação”, como eles chamam. A recomendação de Deng Xiaoping naquela época era "Esconda a sua força e espere seu tempo". Os chineses se sentiam atrasados, humilhados pelas potências mundiais e eles praticamente queriam recuperar seu status no mundo. Agora, depois de recuperá-lo, o lema não é mais "Oculte sua força e espere seu tempo", mas é o desejo de tornar a China um pais importante de novo.

Qual é o papel da Universidade de Pequim na sociedade chinesa?

- A Universidade de Pequim foi a primeira universidade de estilo ocidental na China. Foi formada em 1898 e se desenvolveu ao longo da primeira metade do século 20 em uma universidade no sentido ocidental. Antes disso, era algo como uma instituição de aprendizado para os alunos de Confúcio, a Academia Imperial, que ainda pode ser visitada. Durante a primeira parte do século, a Universidade de Pequim era um centro de pesquisa, liberdade de pensamento, iluminação e valores. Foi a semente do famoso Movimento “4 de maio”, um novo movimento cultural e um grupo de estudiosos que foram muito críticos da tradição chinesa e queriam reformá-la e ficar em sintonia com o resto do mundo em termos de ciência, democracia e outros valores. De fato, “Ciência e democracia” foi o slogan do Movimento “4 de maio”.
A partir desse período, a Universidade de Pequim teve a reputação de vanguarda do movimento intelectual. A maioria dos grandes intelectuais do século XX estudaram na universidade de Pequim ou eram professores aqui. Os estudantes que vêm para cá devem estar cientes disso e saber que estão caminhando nas pegadas dos gigantes, no que se refere à China.

O que você acha que a China pode oferecer que os alunos não podem encontrar em nenhum outro lugar?

- Existem duas respostas para essa pergunta. Se você for um acadêmico, pesquisador e intelectual interessado em cultura e história mundial, a China é um terreno muito fértil para explorar e ainda há muito a explorar em termos de diferenças entre culturas. A história e o idioma da China e seu impacto no mundo são aspectos ainda pouco estudados no meio acadêmico ocidental. Além disso, tendo se desenvolvido relativamente independente da tradição ocidental, a China tem seus próprios sistemas filosóficos, linguísticos, éticos e médicos, que são muito diferentes daqueles com os quais estamos familiarizados. Em alguns casos, eles são radicalmente diferentes de forma que foram incompreendidos nos últimos cem anos, quando a Sinologia se tornou um campo. A China é valiosa porque desafia nossas suposições sobre o que a cultura pode ser e o que é, como pode ser organizada, como a política pode funcionar, como as famílias podem trabalhar, como uma sociedade pode ser ordeira e se basear em suposições totalmente diferentes dos ocidentais. Essa é a parte mais interessante - todos os dias aqui desafiam suas suposições sobre a vida em geral. Para os alunos, essa é uma experiência fantástica de aprendizado. Os estudantes que vieram para cá e passaram mais de um semestre, às vezes mudam completamente da maneira como vêm o mundo e as suas famílias.
Em segundo lugar, é a crescente importância geopolítica da China. É um jogador tão importante e vai impactar todas as regiões geopolíticas. Precisamos ter alunos aqui em Relações Internacionais e Economia, porque precisamos entender esse lugar. Também precisamos cooperar com eles, influenciá-los, porque eles serão uma superpotência capaz de tomar ações unilaterais. Nós devemos fazer parte dessa mudança. Nosso compromisso é vital porque o poder unilateral demais não é positivo para o mundo. Precisamos ter acordos globais cooperativos e é nisso que devemos trabalhar.

Você acredita que seus alunos podem se tornar uma ponte entre seus próprios países e a China, com base em seu conhecimento e experiência aqui?

- É isso mesmo, esse é o foco motivador da Yenching Academy. Um de nossos slogans em chinês significa “foco na China e impacto no mundo”. Aprenda sobre a China, sobre seu sistema político e econômico e depois volte para o seu lugar e estude como esse impacto afetará todos os aspectos do seu país. A ideia é corrigir um problema na mídia ocidental e na educação, que é uma série de equívocos sobre o que é a China e por que ela está fazendo o que faz. Uma das missões da Yenching Academy é oferecer aos acadêmicos uma visão justa e abrangente sobre a China, para que eles possam voltar, divulgar essa visão e promover uma melhor compreensão da verdade sobre a China.
Essa é a única maneira de criar relações produtivas. Se você não entende seu oponente ou colaborador, não e possível colaborar.

Qual é a estrutura do processo de seleção na Yenching Academy?

- Gastamos muito tempo analisando e avaliando cartas de apresentação e currículos. É muito importante para nós porque temos um número crescente de candidatos, há muito interesse na China e temos alguns candidatos muito interessantes que precisam ser avaliados em diferentes aspectos, como o interesse na China e também geopoliticamente, onde estão localizados. Nós definitivamente queremos ter estudantes representando todas as áreas do globo.
Até agora, a maioria do nosso corpo estudantil é da Europa e da América. Temos mais candidatos de lá e algumas das melhores universidades estão localizadas nessas regiões. No entanto, queremos aumentar nossa coorte latino-americana e nossa coorte africana. Todas as partes do mundo que serão afetadas pela China, queremos que todos venham aqui.

¿Que tipo de candidatos estão procurando?

- A maioria dos nossos candidatos tem um GPA muito alto, são muito talentosos, politicamente e socialmente ativos. O nível é muito alto. O alto desempenho acadêmico e potencial de liderança são qualidades importantes, mas não são o fator determinante, já que a maioria dos candidatos possui essas qualidades. O que estamos realmente procurando são pessoas que tenham o potencial de vir e fazer algo interessante, criativo e substancial que impactaria a China ou seu campo de pesquisa.
Por outro lado, também queremos estudantes para quem a Academia Yenching mudará sua vida. Em outras palavras, dar-lhes a oportunidade de fazer algo que não poderia ter feito em qualquer outro lugar. Por isso, não exigimos que eles tenham um conhecimento sólido da China ou falem a língua. Alguns de nossos alunos já falam a língua. Cerca de 20% dos nossos alunos são chineses, mas também temos pessoas que estão começando do zero, o que é um grande desafio.
Estamos procurando pessoas que estão fora das disciplinas tradicionais ou entre diferentes disciplinas, pessoas que poderiam fazer algum trabalho criativo e útil que poderia trazer uma nova perspectiva para o campo da Sinologia, Política ou Relações Internacionais. Estamos procurando pessoas que demonstrem criatividade e verdadeira paixão. É uma característica difícil de definir, mas que se reconhece quando se vê. Estamos muito interessados em alunos que têm ideias pouco ortodoxas sobre o trabalho interdisciplinar. Nós não sabemos o que vai acontecer quando eles vierem para a academia. É como um experimento químico. Queremos ter um monte de pessoas diferentes com interesses e trajetórias diferentes, reuni-los e ver o que vai acontecer. O mundo está mudando rapidamente e precisamos de pessoas criativas que possam encontrar soluções e se adaptar à nova realidade.

Medir o impacto é crucial para o sucesso. Como medem o impacto da Academia?

- Uma medida é o que nossos alunos estão fazendo 2 ou 3 anos após a graduação. Estão trabalhando em uma embaixada, um think-tank ou continuam seus estudos. Prestamos atenção para ver em quais campos eles são mais bem-sucedidos. Outro elemento que queremos acompanhar é quanta cooperação existe entre as turmas e como isso afeta suas carreiras. Somos um novo programa e estamos apenas começando a ter ex-alunos. Os próximos anos serão importantes para monitorar o processo.

Qual é a sua visão a curto e a longo prazo para o desenvolvimento da Academia Yenching?

- Nossa prioridade a curto prazo é tornar nossa turma mais representativa do mundo e aumentar o número de alunos de algumas regiões que ainda estão sub-representadas. O melhor exemplo seria a África, onde há um grande potencial, mas temos poucos candidatos. A outra prioridade é aumentar a presença das humanidades em nossa classe. Até agora, o nosso programa atraiu mais estudantes com experiência em negócios, geopolítica e direito, mas a Universidade de Pequim é "O Harvard" e não "O MIT" da China. A universidade tem os recursos mais ricos em humanidades, filosofia, religião e artes.
A longo prazo, estamos tentando fazer a Yenching Academy mais conectada com as estruturas acadêmicas sociais existentes. Nosso objetivo é criar sinergias com organizações não governamentais locais na China para suportar nossos alunos. Outra prioridade é aumentar os intercâmbios acadêmico com as principais universidades do mundo. Além disso, estamos tentando aumentar o poder do YCA para agir como um facilitador de oportunidades de trabalho, permitindo que os alunos tenham melhores oportunidades de fazer estágios e encontrar empregos na China. Também estamos tentando tornar a Yenching Academy mais conectada no mundo da filantropia da China.

Dizem que as melhores universidades e programas acadêmicos não ensinam como encontrar um emprego, mas como criar empregos. Esta é uma prioridade da Academia Yenching?

- Certamente, esta é uma boa maneira de expressá-lo. Estamos tentando educar alunos que possam criar empregos e campos completamente novos que não existiam antes. Sem dúvida, para fazer isso, precisamos construir conexões e integrar-se as estruturas existentes.

Qual seria a sua mensagem para os jovens de Brasil que estão interessados em receber a bolsa da Academia Yenching?

- Minha mensagem é que seu futuro pode não estar na China, mas a China estará no seu futuro. Isso significa que mesmo que a China não faça parte de sua carreira, você terá que lidar com a China em algum momento, não importa o que você faça. Eu acredito que isso é algo que os brasileiros precisam entender. A República Popular da China está muito interessada em cooperar com o Brasil e outros países da região. A China precisa de acadêmicos de todo o mundo para vir aqui e contribuir.

A oportunidade está aqui. Se você for acetado para a YCA você receberá uma bolsa de estudos integral que cobre a taxa de matrícula, acomodação, despesas de vida, custos de viagem e um excelente lugar para passar um ano. Agora é o momento, é uma oportunidade de ouro!

Para se candidatar, por favor visite Yenching Academy